04 julho 2010

Crônica de uma morte anunciada. Chega ao fim o pesadelo Dunga



A grande maioria dos brasileiros interessados minimamente por futebol sabiam que a seleção brasileira não convencia. Mas, numa copa sem emoções, a equipe brasileira parecia ainda candidata ao título. O problema era justamente esse, o Brasil era mais um time mediano em meio a outros. Nos acostumamos a ser diferentes e melhores, mesmo perdendo mostrávamos futebol superior.

A seleção ficou a altura do jogador e treinador Dunga. Um atleta mediano, que apelava para faltas desnecessárias, quando não violentas. Desarmava e chutava a bola irremediavelmente para a estratosfera. Seu reinado começou com o selecionado de 90, sob o comando de Sebastião Lazaroni, técnico que implantou pela primeira vez 3-5-2 na seleção e acabou com um dos últimos selecionados nacionais que jogavam o bom e velho futebol. Nesta copa da Itália fomos também eliminados nas oitavas e, pior, pela Argentina. Sucumbimos ao genial Maradona que num passe mágico deixou Caniggia na boca do gol. Este geração de jogadores foi intitulada de 'geração Dunga'. Em 1994 sofremos muito para chegar as finais e os momentos geniais ficavam a cargo da habilidade de Romário e lampejos de Bebeto. Fomos campeões jogando um futebol duro e, para desespero, nos pênaltis é que foi desenhado nosso destino.

Em 94 o capitão era Dunga. Ele levantou a taça de gritou: É nossa porra! Confesso que gostei bastante do desabafo, mas infelizmente equivoquei-me na análise. Pensei à época que o palavrão era algo como 'é nossa (povo brasileiro), porra!'. Na verdade ele referia-se ao grupo de jogadores. Aquele era um grito direcionado aos críticos, só isso. E o palavrão era na verdade uma grosseria, algo que o técnico Dunga repetiria com bastante frequência. Um insulto, como aqueles que direcionou aos jornalistas e desrespeitou não somente as vítimas, como a todos os torcedores. Descobri isso tardiamente. Creio que mesmo não admirando seu futebol como jogador, depois daquela minha equivocada impressão, de confraternização com o povo brasileiro, passei a achá-lo um cara legal. Ledo equivoco. Era um fanático apaixonado pelas suas convicções.

Dunga como técnico sempre me pareceu um leitor de livros de autoajuda. Falava do grupo que constituía a seleção, jogadores e comissão técnica, como quem fala de uma trajetória de 'vencedor'. Este é um fenômeno bem próprio de nosso tempo. Todos temos que ser vencedores e trilharmos o caminho que achamos correto, sem dar ouvidos aos outros. Algo como a música 'My way' de Frank Sinatra. No final da partida que nos eliminou (aliás os eliminou), na última quinta, isso ficou ainda mais claro. Todos os jogadores pensavam em si como frustrados, mas não na frustração de milhões de brasileiros. Futebol no brasil não é brincadeira ou pura diversão, é paixão. Ali era um torneio de satisfação puramente pessoal.

O goleiro Júlio César saiu dizendo que aquele grupo de jogadores teria resgatado o amor do brasileiro pela seleção brasileira. Uma constatação de auto centramento absoluto. Acho que o isolamento fez mal ao arqueiro, provavelmente não falou nem com familiares. Viveu numa espécie de BBB na Copa, sem contato com as vozes discordantes dos caminhos escolhidos pelo líder Dunga, posso afirmar que eram milhões.

Felipe Neto que é a imagem da seleção nesta copa, saiu do jogo afirmando que sua entrada criminosa no principal jogador holandês fora 'normal' e que , se quisesse, teria quebrado a perna do adversário. Uma declaração pra lá de infeliz para um atleta profissional, creio que ele precisa de cuidados psicológicos.

Milhões de brasileiros queriam outros jogadores no lugar da maioria dos presentes em campo, excetuando-se talvez o goleiro Júlio César, isso se não levarmos em consideração uma remota possibilidade de levarmos o melhor guardador de redes de todos os tempos, Rogério Ceni. Kaká estava machucado e era uma boa opção para o banco e nem Robinho no momento era melhor que seus próprios companheiros de agremiação 'clubística', intitulados meninos da Vila, do Santos.

Como tudo tem um lado bom, acho que uma terceira 'era Dunga' não vingará. Acho que uma retomada ao nosso velho e bom futebol se anuncia para breve. A violência de Felipe Melo será mais lembrada que a ajeitada de meião de Roberto Carlos nas conversas de, pelo menos, os próximos quatro anos.


Finalmente Dunga cantou 'Eu vou, eu vou para casa agora eu vou'. A grande maioria dos jogadores não mora no Brasil, nem sei se o técnico mora.

Ouvi ontem alguém dizer e acho que é pertinente: 'O Brasil hoje é constituído de um Dunge, 23 sonecas e 190 milhões de zangados'.

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