
A franco-colombiana Ingrid Betancourt, três americanos e onze militares colombianos reféns das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) foram libertados em uma operação vitoriosa do Exército da Colômbia. Ainda mal explicada, é verdade. Betancourt, a refém mais importante das Farc, foi seqüestrada em 2002, quando fazia campanha eleitoral como candidata à Presidência da Colômbia. Sua dupla nacionalidade e, bom intercurso nas castas de poder francesas, ajudou a trazer a atenção da comunidade internacional para o caso dos reféns colombianos.

O resgate ocorreu na floresta do departamento de Guaviare, com características cinematográficas. A triunfante missão teve o sugestivo nome de “xeque-mate” e, segundo versão oficial, não houve derramamento de sangue. Militares colombianos fingiram-se de membros de uma organização fictícia que, supostamente iria levar os reféns de helicóptero a outro local, onde encontrariam o líder rebelde Alfonso Cano. A operação , na verdade uma cooperação militar entre EUA e Colômbia, incluiu imagens de satélite e telefonemas interceptados. O candidato de Bush, o republicano John McCain , ele disse que estava na Colômbia por coincidência. Digamos, uma feliz "coincidência".
Em declarações pós-resgate, Betancourt, prometeu que não vai se esquecer dos seqüestrados que estão em poder das Farc. Além disso, pediu que as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia e especialmente seu novo secretariado e líder, Alfonso Cano, "entendam que este é outro momento histórico", e que é preciso "fazer política e abandonar as armas". "A luta guerrilheira é obsoleta na América Latina, como disse Chávez", completou. Disse que a guerrilha deve ter a "coragem" de reconhecer isso para abandonar a luta armada.

Por telefone, o presidente dos EUA, George Bush, falou com seu equivalente Álvaro Uribe, e o parabenizou, dizendo que o presidente colombiano é "um líder forte". Uribe, por sua vez, agradeceu a Bush por seu apoio e confiança no governo da Colômbia. Washington já despejou ao menos US$ 5,5 bilhões no país sul-americano para financiar operações de extermínio de plantações e repressão a cartéis.
As Farc, antes uma força de 17 mil homens capaz de atacar cidades e realizar diversos seqüestros, foi confinada a áreas remotas e agora têm cerca de 9.000 homens. A guerrilha também perdeu dois membros da sua cúpula, composta por sete pessoas, o líder máximo e fundador do grupo, Manuel Marulanda Tirofijo, e Raul Reyes, morto em operação do Exército em território equatoriano (
veja post antigo sobre o assunto).
O prognóstico é bastante desfavorável para as Farc, que é considerado como um grupo terrorista pela União Européia e pelos EUA, e de fortalecimento de Uribe, que esta a frente de um governo centralizador, altamente repressivo e vem alavancando uma certa admiração por parte de laguns vizinhos.

Ávaro Uribe se elegeu em 2002, neste pleito, Betancourt, se postava como candidata alternativa à Presidência e acabou capturada pela guerrilha. Bem votado, ele só vem aumentando seu prestígio interno, à custa de uma sólida e muito rica aliança com os EUA. Posiciona-se como contraponto ao polêmico Hugo Chávez na região.
Uribe desfechou outro duríssimo golpe nas Farc e com isso se qualifica politicamente para mudar a Constituição e concorrer a um terceiro mandato em 2010. A operação "sem tiro e sem sangue" domina ruas e mídia colombianas, reforçando projeto de reeleição.

Com um apoio popular que supera os 80%, segundo as pesquisas, e diante de uma oposição enfraquecida, Uribe ganha folego para seus intentos. Uma fonte, que recentemente esteve no país, disse que o Estado colombiano faz das forças armadas um caminho sólido, uma opção de emprego, com direito à aposentadoria diferenciada e benesses que não se estendem ao restante da população. Em um país em crise, trata-se de um grande atrativo empregatício. No entanto, é repudiado por boa parte da classe intelectual colombiana e, até então, sofría uma rejeição continuada por parte dos catedráticos do país.
Os dissabores que o presidente vinha experimentando no Congresso e no Judiciário tendem agora a tornar-se irrelevantes. O que acha Ingrid acerca de um terceiro mandato de Uribe? "Se o povo quiser, qual é o problema?", disse, já em um tom político.

Ingrid Betancourt, ao contrário de Uribe, era em 2002 uma anti candidata pendurada num partido de vida meteórica e de nome nome singular -"Oxigênio"- , com pitadas verdes e campanhas curiosas. Nem de esquerda e nem de direita, buscava aquele apoio etéreo, fincado na insatisfação geral, contudo, sem grandes bases programáticas. Os símbolos de sua campanha eram um preservativo e o remédio Viagra (para disfunção erétil), e ela desfilava pelas ruas comparando a corrupção à Aids, aos gritos de "Proteja-se!". Até o seu seqüestro tinha 2% das intenções, com chances mínimas. Naquele momento alavancou a candidatura de Uribe, o medo da guerrilha ajudou o atual presidente. O medo é ótimo para candidatos de direita. As torres gêmeas ajudaram Bush, vocês se lembram bem, tenho certeza.
AlívioPelo menos para os franceses o assunto chega ao fim e os jornais não terão mais este tema para explorar. A cobertura do caso, pela mídia francesa, sempre centrou-se no drama pessoal da franco-colombiana Betancourt, com poucas exceções, foi capaz de desenhar um painel mais amplo do conflito. O latino-americano, não raro, é desenhado com contornos de bufão, uma caricatura. É aquilo que classifico como síndrome “TinTin”*.
Até ser capturada pelas Farc, Ingrid Betancourt era pouco conhecida na França. Mas seu seqüestro ocorreu em plena campanha presidencial francesa de 2002, e a classe política do país se apoderou do caso, que comoveu a população. Naquela altura Chirac era candidato a reeleição, apoderou-se de todo o conteúdo dramático, capitalizou o episódio.
Fico feliz pelo fim da agonia de um ser humano, ninguém merece esta situação humilhante de refém. Nada justifica um seqüestro de 6 anos. É um absurdo inominável. Mas, tudo aquilo que envolve a guerrilha, não pode ser resumido a este episódio.

*Tintin é um jovem repórter criado por Hergé (o belga Georges Remi.) em 1929. É um clássico dos quadrinhos. Na França e países francofônicos é extremamente venerado. Mesmo levando em conta o contexto histórico, as historinhas do repórter Tintin são assustadoramente racistas e colonialistas, privilegiando um ponto de vista europeu branco elitista. Os povos “não-europeus” são retratados caricaturalmente, quando não com traços animalescos.